sexta-feira, 19 de março de 2010

Artigo: A educação e as suas contradições

A educação e as suas contradições

Nos dias atuais, assistimos o governo federal incentivar jovens a escolherem como carreira profissional o cargo de professor da educação básica, usando propagandas nos meios de comunicação que criam nas nossas mentes as seguintes questões: Querem trabalhar com as pessoas mais interessantes do mundo? Querem interagir com pessoas de várias opiniões diferentes? Qual o profissional responsável pelo desenvolvimento econômico e social de muitos países? Vamos juntos construir um país mais justo e melhor de se viver?

No momento que se discutem as melhores maneiras de se promover a inclusão daqueles que possuem algum tipo de deficiência; percebe-se que a maior deficiência do nosso país é a falta de educação social, responsável pelo egoísmo, orgulho, preconceitos e prepotências que acarretam em transtornos de comportamento, mostrando que a desigualdade social atinge aspectos maiores do que se imagina, transformando muitos, em seres de hábitos contraditórios e pensamentos ilusórios.

Encontramos analfabetos educados, aqueles que possuem pouco ou nenhum grau de instrução por não ter freqüentado por um tempo ideal alguma instituição de ensino, mas que possuem comportamento exemplar de cortesia e gentileza, sem contradições na sua postura baseada em valores éticos. Ao mesmo tempo em que vemos aqueles “ditos letrados” mal educados, que por mais que possuam altos níveis de escolaridade, não se importam em agir com respeito, de forma igualitária e fraterna perante aqueles que julgam serem inferiores. Isto é o que uma sociedade evoluída necessita.

Comparando o país como um paciente, percebe-se que índices que medem a qualidade de ensino aumentam na tentativa de se alcançar metas estabelecidas; números que comprovam a melhoria na educação, como o aumento de matrículas e conclusões nos ensino básico e superior. Números que engolimos como analgésicos temporários anulando a percepção de certos sintomas, mas que não chegam a uma cura definitiva.

E a doença da deficiência educacional permanece escondida, camuflada na sociedade, e é percebida quando constatamos que nosso país começará o ano de 2010 entre as vinte maiores economias do mundo, participando como membro, mesmo que temporariamente e indiretamente nos principais organismos internacionais como a ONU; será o país sede do mundial da FIFA 2014 e da olimpíada 2016; ajudamos militarmente e financeiramente outras nações. Mas, ao mesmo tempo, boa parte da população passa fome, a desigualdade social é uma das maiores do mundo, enfim, estamos em guerra contra nós mesmos se compararmos o número de mortes violentas que aqui ocorrem em relação a guerras entre países distintos.

Opinamos na tentativa de arrumar a casa dos outros, sem conseguir arrumar nossa própria casa; seguindo o velho discurso ''faça o que digo, mas não faça o que faço''.

Antes do projeto pré-sal, tentávamos vender álcool como uma das soluções biologicamente corretas para diminuir a poluição mundial, mas ao mesmo tempo devastamos a cada minuto o tamanho equivalente a uma área um pouco maior que um campo de futebol da maior floresta tropical do mundo. Com o pré-sal, há a promessa que vamos alcançar um grande desenvolvimento em várias áreas da sociedade com mais petróleo no mercado nacional e internacional. Mas haverá mais gases poluentes presentes na atmosfera derivados da queima desse combustível fóssil. Criticamos os países desenvolvidos por vários motivos, mas bem que queríamos estar na posição econômica e social deles.

Erramos ao mesmo tempo em que acertamos; analfabetos educados; letrados mal educados; subdesenvolvidos, mas industrializados; possuímos muitas teorias educacionais que não funcionam na prática; instituições de ensino superior que ajudam a elaborar e aplicar exames externos, mas que não aceitam esses mesmos exames como forma de avaliação e ingresso em seus cursos superiores; o país do futebol, da alegria, do amor, também é o país da corrupção e da injustiça. Vivemos em uma dualidade difícil de entender e aceitar como a própria natureza da luz (onda-matéria), ou como uma patologia psicológica de realidade e ilusão.

Como convencer os jovens a ajudarem na construção de um país mais justo e melhor sendo um professor, se a sua própria nação não é justa com os educadores há muito tempo? Conscientizamos, mas não sensibilizamos. Motivamos sem conseguir mobilizar porque falamos muito, mas não agimos de maneira exemplar.

Muitos dos profissionais da educação são apenas profissionais, simplesmente professores que enxergam as instituições de ensino como empresas de um sistema capitalista, onde ele é apenas um empregado, uma vez que a educação está cada vez mais caracterizada por números, índices, gráficos e tabelas, valorizando-se muito a quantidade. Na verdade, deveríamos ser educadores, professores educadores, sem momento determinado para ensinar e aprender, vencendo e superando preconceitos e barreiras burocráticas estabelecidas por esse sistema, e visando sempre a qualidade.

A tarefa de eliminar as contradições que mexem com as entranhas sociais e educacionais é de todos nós. A partir do momento em que conseguirmos valorizar a nós mesmos como professores educadores, assumindo um papel, não só de profissional da educação, mas também de educadores que abraçam a causa social, não somente para nos sentirmos importantes, valorizados e reconhecidos, aceitos e respeitados socialmente, mas acima de tudo, por amar o que fazemos, pois quando há amor de verdade, não há espaço para contradições.

Parece que a desordem social está nas nossas cabeças porque pensamos, executamos e concluímos por obrigação, por falta de opção e, raramente, porque gostamos da nossa profissão. Em suma, o que existe é falta de amor pelo que fazemos, pois para muitos, amor é um sentimento e caridade é esse mesmo sentimento em ação.

Lembremos de um dos maiores educadores de todos os tempos em I coríntios, 13; 13 “agora; portanto; permanece fé, esperança, caridade; estas três coisas; a maior delas, porém é a caridade.” Assim, a meu ver, ser educador é estar em ação pelo amor social que o envolve, na tentativa de eliminar as trevas das contradições éticas, sociais e iluminar os caminhos comportamentais da fraternidade pelo conhecimento científico-tecnológico e social. Aquele que ama ensina. Aquele que aprende, também aprende a amar, porque ensinar e amar são qualidades semelhantes de um personagem distinto: O professor educador.

Alessandro Batista de Araújo

Licenciado em Física – Universidade de Brasília-UnB

Professor Formador do CEFAPRO/Rondonópolis-MT

alessandro.araujo@seduc.mt.gov.br

Obs: Publicação "A Tribuna"

Jornal local de Rondonópolis/MT

Data: 03 e 04 de Março de 2010

Parte I e II - III e IV

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